Uma disputa societária interna veio à tona com o ajuizamento de uma ação pela Eagle Football contra John Textor na 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Os acionistas da empresa, que controla o Botafogo, alegam que o empresário americano tem praticado “medidas ilícitas” e pedem a suspensão de atos que consideram prejudiciais.
O cerne da questão reside em uma cláusula do contrato da Eagle, que desde 2 de junho deste ano exige a aprovação do diretor, o advogado escocês Christopher Mallon, para qualquer decisão corporativa. A ação judicial acusa Textor de ter ignorado essa exigência ao realizar movimentações financeiras sem o aval de Mallon, incluindo uma suposta “cessão de créditos” do Botafogo para uma empresa nas Ilhas Cayman, que poderia chegar a 150 milhões de euros.
Acusação de danos irreparáveis e conflitos de interesses
A cessão de créditos foi aprovada em uma Assembleia Geral Extraordinária de Acionistas (AGE) e em uma Reunião do Conselho de Administração (RCA) do Botafogo no dia 17 de julho. Por isso, a Eagle solicita à Justiça a anulação de todos os efeitos dessas reuniões. O processo argumenta que, se as ações de Textor não forem contidas, ele “continuará a causar irreparáveis danos à Eagle Bidco e ao Botafogo”, principalmente por meio da iminente diluição da participação acionária da empresa e da concretização de “operações complexas e lesivas”.
A Eagle também resgata detalhes da compra do Lyon em 2022. Naquela operação, Textor teria hipotecado todas as suas ações na SAF do Botafogo para garantir um empréstimo de US$ 425 milhões (aproximadamente R$ 2,3 bilhões) com o fundo de investimentos Ares. Com isso, a Eagle Bidco passou a ser a detentora de 90% das ações da SAF alvinegra, enquanto o clube associativo manteve os 10%.
Apesar de não ter mais as ações em seu nome, Textor permaneceu na presidência do Conselho de Administração. No entanto, em 23 de abril de 2025, em razão de “equívocos na administração”, os acionistas da Eagle Bidco decidiram transferir o poder de gestão para Christopher Mallon.
O processo relata que, no dia 17 de julho, Mallon informou Textor sobre a necessidade de removê-lo da administração do Botafogo. Horas depois, Textor teria presidido a RCA para transferir ativos do clube para a empresa nas Ilhas Cayman, mesmo ciente de que não tinha mais autonomia para tal. A ação acusa Textor de adotar “medidas ilícitas” para “tomar para si ativos relevantes e o controle acionário do Botafogo”, especialmente após anunciar a intenção de comprar o capital do clube, o que criaria um evidente conflito de interesses.
O processo da Eagle também destaca que a diluição acionária aprovada na AGE, também presidida por Textor, visa a beneficiar a Eagle Cayman e os interesses pessoais do empresário, em detrimento do próprio Botafogo.
Disputa judicial e contexto do conflito
O conflito escalou para os tribunais na última semana, quando o Botafogo, por meio de seu clube associativo, acionou a Justiça para congelar as ações da Eagle na SAF. A empresa contra-atacou pedindo a suspensão de qualquer registro de contrato em nome do clube sem sua aprovação.
A Eagle Football, criada por John Textor, inclui Botafogo, Lyon e RWDM Brussels. A relação com os acionistas azedou após o rebaixamento administrativo do Lyon, revertido somente após a saída de Textor do comando do clube francês. O fundo de investimentos Ares, credor de Textor, é um dos principais acionistas da Eagle e estaria insatisfeito com a falta de pagamento da dívida.


