Uma nova e intensa disputa judicial emerge no cenário do futebol, colocando em lados opostos o empresário John Textor, proprietário da SAF do Botafogo, e o fundo de investimentos Iconic Sports. O embate se concentra no controle da Eagle Football Holdings, a empresa multi-clubes criada por Textor. A querela, que já se desdobra em cortes inglesas e americanas, envolve cifras que ultrapassam os R$ 500 milhões e levanta questões sobre o futuro da gestão dos clubes sob o guarda-chuva da Eagle.
A tensão escalou no início deste mês, quando a Iconic Sports, acionista da Eagle desde 2022 devido a um investimento que auxiliou
Textor na aquisição do Lyon, protocolou uma ação na Justiça inglesa buscando a transferência de ações e a assunção total das propriedades de Textor na Eagle.
Em resposta, Textor acionou seus parceiros na Justiça americana, alegando que a Iconic não possui tal direito.
Manobras legais e acusações de ambas as partes
No dia 15 de julho, a Iconic formalizou um pedido de transferência de ações com a clara intenção de assumir todas as participações de Textor na Eagle. O empresário americano reagiu no dia seguinte, contestando a legitimidade da reivindicação da Iconic. O fundo também solicitou a remoção dos membros do conselho da Eagle indicados por Textor e o registro formal de que as ações outrora detidas pelo americano agora pertencem à empresa. Até o momento, a decisão sobre esses pedidos está a cargo dos próprios membros da Eagle.
Em 22 de julho, John Textor deu um passo decisivo nos Estados Unidos, solicitando uma Ordem de Restrição Temporária (ORT) para impedir que a Iconic tome “medidas irreparáveis” em relação à Eagle, buscando garantir que a questão do controle da empresa seja definida judicialmente de forma não emergencial. Textor argumentou que, sem a ORT, a Iconic continuaria a se apresentar como proprietária da Eagle, colocando o conselho da holding em uma “posição insustentável” de incerteza sobre a quem responder.
Um trecho do relatório de status do caso, datado de 24 de julho, revela as consequências dessa incerteza: “Por exemplo, a equipe jurídica da Eagle expressou preocupações sobre se comunicar com o autor (Textor) devido à incerteza que cerca a posição do autor na empresa, e o autor buscou convocar uma reunião do conselho, sem sucesso. Como resultado, a Eagle não pôde apresentar documentos requisitados à SEC para continuar com o processo de IPO, e o financiamento necessário para apoiar a IPO foi interrompido”.
A solicitação de Textor foi acatada pela juíza Aileen M. Cannon, que determinou que as partes envolvidas – Textor, Iconic, James Dinan e Alexander Knaster – se reúnam para deliberar sobre a moção de Textor e apresentem um relatório sobre o andamento da disputa.
Por outro lado, a Iconic e os demais réus definem o pedido de ORT de Textor como “inadmissivelmente” vago e abrangente. Além disso, questionam a competência do sistema judiciário da Flórida para resolver a disputa, alegando que os contratos entre as partes contêm “claras disposições” que remetem o caso aos tribunais ingleses. O fundo argumenta ainda que o tribunal da Flórida não tem jurisdição para limitar as ações dos conselheiros da holding, uma vez que eles não são réus no processo.
O contexto financeiro da disputa e os argumentos de Textor
A origem da contenda remonta a 2022, quando Textor buscou financiamento para adquirir o Lyon. Ele obteve empréstimos da Ares Management, da empresária Michele Kang (atual presidente do Lyon) e da Iconic. Como parte do acordo, esses três investidores passaram a deter 40% das ações da Eagle, com as ações do Botafogo e do RWDM Brussels servindo como garantias.

A Iconic Sports emprestou US$ 75 milhões a Textor em 2022 e agora exige que ele recompense as próprias ações por US$ 94 milhões, valor que inclui juros. Textor contestou essa cobrança em uma declaração juramentada divulgada na última terça-feira, argumentando que “a Eagle adquiriu um clube insolvente (referindo-se ao Lyon) e, sob sua gestão, voltou para a parte competitiva do futebol francês e classificou-se para a Liga Europa nos últimos dois anos”.
Entre os argumentos apresentados por Textor para defender sua permanência no comando da Eagle, destacam-se:
- Modelo de Colaboração entre Clubes: “Eu desenvolvi um modelo de sucesso de colaboração entre nossos clubes, especialmente no que diz respeito à competitividade de otimização dos nossos elencos, resultando que a insolvência deles se transformasse em títulos, com mais recentemente o Botafogo tendo sucesso na Copa do Mundo de Clubes vencendo o Paris Saint-Germain, considerado um dos melhores clubes do mundo. Essa vitória ocorreu apenas anos depois que eu adquiri o Botafogo (anos depois que a Eagle foi formada), e levantei o clube da segunda divisão em 2022 para os títulos da Libertadores e Brasileirão em três anos.”
- Recuperação do Lyon: “Com todo respeito ao Lyon, em 2022 a Eagle adquiriu um clube insolvente e, diante da minha administração, conseguimos voltar a ser competitivos na França e nos classificamos para a Liga Europa pelo segundo ano consecutivo.”
- Papel Atuante na Gestão: “Eu executei esses projetos não sendo apenas o CEO da Eagle, mas também como presidente e principal operador de futebol dos clubes, fazendo todas as operações chaves envolvendo o futebol.”
- Experiência e Competência: “Os réus não têm sucesso similar comandando clubes de escala mundial. Se os réus assumirem o controle da Eagle de mim, essa mudança no comando faria mal à Eagle e a todos seus acionistas.”
Nos bastidores, Textor estaria se movimentando para criar uma nova empresa nas Ilhas Cayman, com a intenção de transferir o controle do Botafogo e do RWDM Brussels para essa “nova Eagle”. A disputa promete novos capítulos e terá impacto direto na estrutura de gestão dos clubes envolvidos, especialmente o Botafogo, cuja SAF está no centro do litígio.


