O novo técnico do Botafogo, Davide Ancelotti, concedeu uma entrevista coletiva de destaque em sua apresentação oficial, surpreendendo ao se comunicar em português fluentemente. O treinador italiano abordou uma gama de tópicos, desde seu estilo de jogo e o desafiador calendário do futebol brasileiro até suas ambições no clube, a importância do gramado sintético e o potencial dos jovens talentos alvinegros.
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O estilo de jogo: Versatilidade e coragem ofensiva
Ancelotti destacou a necessidade de um time que saiba se adaptar para vencer, mas com uma identidade clara:
“Como falei antes, tem que ser um time que sabe ganhar de distintas formas, mas claramente queremos ser um time que joga futebol vertical, um futebol que gostem os torcedores do Botafogo, que tenha ambição, que tenha coragem. Os valores do clube são muito importantes para mim, são muito claros para os jogadores também. Queremos jogar um futebol que possa representar os torcedores do Botafogo. Depois, no futebol, a gente tem que se adaptar ao contexto do jogo também. Eu acredito que, para ganhar, uma equipe inteligente é uma equipe que sabe se adaptar.”
Ele também exemplificou a adaptação com a chegada de Arthur Cabral: “Temos um centroavante que é o Arthur Cabral. O Arthur Cabral é um centroavante que tem características que a gente tem que acostumar a jogar com ele. Então, isso é adaptar-se também. Na saída de bola, temos que ter uma ideia, que temos um centroavante que pode manter a bola para a gente. Então, criar situações para que ele seja importante. E também, quando atacamos, temos que ter claro que queremos ser uma equipe perigosa, que não joga a posse de bola sem ter a vontade de ser perigoso. Temos que chegar à área. Estamos trabalhando nisso. Vamos precisar de tempo, treinos. Não vamos ter muitos treinos, mas com os jogos também a gente pode melhorar.”
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Táticas no jogo contra o Vasco
Sobre a vitória contra o Vasco, Ancelotti explicou a estratégia inicial e a escolha por Nathan Fernandes como centroavante:
“A ideia contra o Vasco foi um pouco de ser agressivo no começo do jogo, nos tiros de meta deles. A gente sabe que os times de Diniz são difíceis de roubar a bola, mas queríamos ter essa ambição de fazer a pressão alta no início. Comecei com essa escalação, mas todos vão ter oportunidade, têm a oportunidade de mostrar nos treinos, todos os jogadores. Nos treinos eu vi que o Nathan tem a possibilidade de ser um centroavante, de ser vertical, e eu achei junto com a comissão técnica, com o Cláudio (Caçapa), que podia ser uma boa alteração para o contexto do jogo. A gente tinha muito espaço para atacar nas transições, depois do gol, e ele entrou muito bem, com muita boa atitude, com as ganas de atacar o espaço, porque se ele ataca as costas da defesa, ele pode ser muito perigoso.”
Adaptação e continuidade nas mudanças internas
Ancelotti frisou que não pretende revolucionar tudo de uma vez, priorizando a colaboração:
“A comunicação com o Léo (Coelho), com o Alessandro (Brito), o presidente (John Textor), é constante. Então, vamos trabalhar juntos, não posso chegar e mudar tudo, também porque tenho respeito ao trabalho feito antes. É um processo que temos que competir, temos que ganhar partidas, mas também é um processo que temos que, pouco a pouco, crescer. Seguro que eu não estou aqui para mudar tudo. Pouco a pouco, vamos fazer coisas que a gente, juntos, considera importantes.”
Calendário intenso e escolha pelo Botafogo
Sobre o apertado calendário do futebol brasileiro, o italiano demonstrou familiaridade:
“Acredito que a tendência do futebol no mundo inteiro é assim. Minha experiência na temporada passada com o Real Madrid foi de mais de 70 partidas. Costumo treinar em um clube que joga tanto. Não vai ser um problema, mas é um problema geral, porque a qualidade dos jogos vai baixando. Acredito que também na última Copa do Mundo o Clube pôde se ver que as equipes, sobretudo as equipes europeias, chegaram um pouco cansadas. A qualidade dos jogos não era sempre a melhor.”
A decisão de vir para o Botafogo foi clara para ele: “Seguramente a ambição que ouvi nas palavras do presidente e a possibilidade de trabalhar, de ser parte da família do Botafogo, um clube que tem muita história, muita tradição, muita ambição, isso, para mim, foi muito fácil. Estou muito agradecido aos clubes interessados. Ao final da temporada passada, tive conversas e negociações, mas agora, quando o presidente chamou, não tive nenhuma dúvida. Então, estou muito feliz de ficar aqui.”
Elenco, reforços e experiências da altitude
Questionado sobre contratações, Ancelotti transferiu a responsabilidade ao clube, focando no potencial dos atletas atuais:
“Todo treinador fica feliz quando chegam reforços, eu estou feliz com o elenco que tenho hoje, a comunicação, como já falei, com o Alessandro, com o Léo, com o presidente, é constante. Essa é uma pergunta para o clube, eu só quero explorar ao máximo o talento dos jogadores que temos, temos jogadores jovens com muito talento, na base também, temos jogadores que tem potencial, eu agora estou focado em conhecê-los melhor, pessoalmente, sobretudo, e como jogadores também.”
Sobre o desafio da altitude na Libertadores contra a LDU, ele admitiu ser uma novidade, mas buscará apoio interno: “A Libertadores está longe, temos outros desafios agora. Claramente, (altitude) vai ser uma experiência nova, é uma viagem muito longa também, então preciso da ajuda dos profissionais do clube que também têm experiência nisso e seguramente vão me ajudar.”
Vantagem do gramado sintético e ambições
Para Ancelotti, o gramado sintético do Nilton Santos deve ser um diferencial: “Sobre gramado sintético, tem que ser uma vantagem claramente. Tenho que aproveitar isso, temos que jogar um futebol com poucas pausas, também. Eu vindo da Europa vejo que há diferença também nos treinos e nas pausas, temos que fazer o treino com mais ritmo, mais curto e o jogo tem que ser o mesmo, tem que jogar um futebol de alto ritmo em casa, isso pode ser uma vantagem.”
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Ele ressaltou que, apesar da exigência por títulos, o foco principal é o desempenho: “O Botafogo é um clube que tem uma exigência muito grande pela história que tem, pela qualidade que os jogadores têm. Eu sei que tem exigência, mas o presidente não falou comigo de ganhar títulos. Falou comigo que temos que jogar. Eu estou alinhado com ele. Temos que, como já falei, representar os valores do clube. Temos que jogar com coragem, temos que jogar um futebol atrevido. Eu vou tratar de trabalhar duro com a minha comissão técnica para conseguir isso. Sabemos que os resultados são importantes. Temos que trabalhar duro e demonstrar e ganhar partidas. E agora só temos tempo para preparar o próximo jogo, na nossa casa, contra o Vitória. Então, é nisso que estamos focados agora.”
Trajetória pessoal e visão de futuro
Ao explicar o fim de sua carreira como jogador e sua escolha pela comissão técnica, Davide foi direto: “Posso dizer que foi uma lesão? Não, não foi uma lesão. Escolhi estudar, porque acreditei que era melhor estudar. Então, estou feliz com escolher estudar, sinceramente. Falei com os capitães do time. Uma das primeiras coisas, acredito que é muito importante para mim, que sou um treinador jovem, ter essa liderança compartilhada com eles. Aqui temos líderes muito, muito marcados, importantes, que vão me ajudar e eu preciso da ajuda deles. Estou muito agradecido da maneira que me acolheram, porque foi uma ajuda muito, muito grande, quando eu cheguei, há uma semana.”
Ele se sente pronto para o desafio: “Sinto que estou preparado para começar a minha trajetória. Não tenho nenhuma dúvida. Tenho uma comissão técnica que tem toda a minha confiança. Então, me sinto com muita confiança, muito feliz, preparado, porque tenho uma experiência muito larga, muito longa, como na comissão técnica do meu pai. Então, sinto muita confiança.”
Por fim, ele elogiou a competitividade interna do elenco: “Comparando o elenco que temos agora com os elencos que tive na minha experiência, o primeiro que eu vi foi a competitividade nos treinos. Isso é muito importante para mim. A competitividade que a gente tem interna tem que ser forte e é muito, muito, muito, muito grande. É difícil até ser árbitro nos jogos, no treino, aqui. Então, eu gostei muito disso e, se tenho que dizer uma coisa, é a competitividade do elenco que temos.”
Para Ancelotti, comandar o Botafogo é a realização de um sonho: “Bem, o tema do sonho é que estou fazendo o trabalho melhor do mundo e que estou vivendo meus primeiros passos como treinador, então agora tudo é muito bonito. O fato de poder estar no comando é… Estou vivendo um sonho. Depois as críticas terão tempo para chegar e chegarão. Tenho que estar preparado também e cometer erros e tudo, mas agora o que mais sinto é este grande sonho. E depois, no final, era o que eu buscava também, porque estou acostumado a contextos ganhadores, contextos exigentes, então agora era um pouco também o que eu buscava. Por isso, penso que estou no clube ideal e no contexto adequado para poder começar a minha carreira, porque o que tem de competir para ganhar, eu acho que não tem nada, ninguém. É um privilégio e era o que eu buscava desde o início.”


